Minha história

Shopping Zumbi

09/05/2011

Que saco! Meu pai trabalha no shopping como vitrinista, o cara que monta e veste as manequins que ficam nas vitrines das lojas. Uma noite, precisei ir com ele pro trabalho porque haviam feito dedetização em casa e eu não podia ficar por lá com aquele cheiro horrível, sou alérgico e coisa e tal… Muito bem. Todo mundo sabe que esse tipo de trabalho rola à noite, depois que o shopping fecha, de modo que tive de ficar de bobeira por lá, madrugada adentro. Fiquei ocupado nas primeiras horas, olhando as roupas e os produtos expostos, e até dei uma ajuda pra forrar o chão das vitrines com veludo e coisa e tal até ficar entediado. Lá pelas tantas, quis comprar um refri e meu pai me disse que só no andar de baixo havia uma daquelas máquinas, tipo pegue e pague. Pedi um troco pra ele e saí andando.

 10/05/2011

Muito louco! O shopping que meu pai trabalha é dos grandes. Possui quatro andares de lojas e três garagens na parte inferior. É loja que não acaba mais! Desci a escada rolante, andei até a metade do quarteirão, num corredor lateral, e contornei a esquina. Dei de cara com um dos vigias fazendo a ronda do andar. Troquei ideia com ele, mas nem disse o que estava procurando. Ele é um conhecido do meu pai, mas não gosto de dar moleza com gente estranha, sabem como é. Então, joguei um tchau e fui pra meu canto. Encostada à parede do banheiro, lá estava a máquina que eu procurava… quebrada! Não acreditei. O vigia já tinha descido a escada e nem ia adiantar ir atrás dele procurar informação. Eu sabia que havia outra daquelas, em outro andar. Decidi descobrir qual.

 12/05/2011

Me ferrei! Pois é, a gente pensa errado e faz m…! Quando me dei conta, estava perdido. Vocês vão dizer: perdido, como? Eu respondo: perdido mesmo! São tantas lojas, muitas vitrines e aqueles manequins sinistros… Eu nunca gostei de manequins, sabe? Parece gente morta prestes a retornar. Comecei a me encanar com aquilo. Para onde eu olhava, lá estavam eles olhando de volta pra mim. Me davam nos nervos! Parei e pensei em voltar todo o caminho, me sentindo um verdadeiro otário. Nem imaginava o que estava pra rolar.

 14/05/2011

Assombrado! Se você já ficou perdido num estacionamento de shopping com sua mãe, sem saber exatamente onde o carro está, sabe como é olhar de um lado a outro e não ter orientação. Tudo parece igual. Isso acontece porque ninguém se lembra de olhar a placa que indica o setor, o andar, a letra ou número, nem mesmo um detalhe que daria a pista na hora do aperto.  Pois eu me encontrava nessa situação idiota. Eu repetira o mesmo erro! Mancada total. Resolvi ir em frente, para o andar de cima. Talvez perto da praça de alimentação tivesse outra máquina de refri. Quando terminei de subir a escada rolante (que estava parada, claro) para o andar de cima, entrei num corredor largo entre lojas que se encontrava completamente vazio e pouco iluminado. Às vezes, há pessoas que trabalham na limpeza do piso e dos banheiros e também ficam até mais tarde. Mas não havia mais ninguém por lá. Tudo no mais completo silêncio. Nesse momento, tive uma sensação estranha, pressenti uma espécie de mudança, como se as coisas não estivessem mais no lugar certo. O tempo, de alguma forma, havia se alterado. Percebi uma impressão de movimento que progredia do lado oposto do corredor, vindo em minha direção.  Parei e olhei com atenção. Eram vultos.

 16/05/2011

Coisa estranha… Como pode um bando de gente estar àquela hora no shopping? Eram 3 da manhã! A  última sessão de cinema tinha acabado há um tempão. Mas o estranho mesmo, era que os vultos não faziam barulho, não estavam conversando, rindo ou batendo o salto dos sapatos no piso de mármore travertino. Eles deslizavam. E havia vultos altos e  menores, como se fossem crianças. Parecia uma procissão maldita. Sinistro. Recuei, pensando no que podia fazer. Fiquei pensando rapidamente o que seriam, como podiam, o que estariam fazendo ali, àquela hora. Algo me disse pra ficar esperto. Olhei em volta rapidamente, pensando em me esconder no banheiro. Logo me lembrei da história da loira sangrenta e desisti.

 18/05/2011

Fuja! O bando se aproximava com lentidão mórbida. Eu estava assustado, mas não podia compreender o que era aquilo. E, enquanto isso não acontece, parece que a mente vacila e ficamos paralisados, esperando eternamente pela ordem de fuga. Pois bem, ela veio bemmm mais tarde. Veio direto e reto quando o primeiro dos vultos passou por mim. Tinha uma aparência translúcida, transparente como fantasma. Vestiam-se como humanos, movimentavam-se como humanos, não, seguramente, não eram humanos. Seus olhos eram parados, fixos, sem expressão. A boca era estática, mas juro que vi alguns babando e sorrindo, malignamente. Tinham o olhar vidrado e se arrastavam feito zumbis! Passaram por mim sem me enxergar… Homens, mulheres e crianças… Aquele bando se arrastava pelo corredor do shopping,  como se fizessem compras no mundo do além! No momento em que percebi qual era a encrenca, saí correndo o mais rápido que pude.

20/05/2011

Tô fora! Corri por todo o corredor sombrio, apavorado com a ideia de ser perseguido pelo bando de zumbis sugadores de cérebros adolescentes. O shopping estava vazio, nem mesmo o vigia eu pude encontrar naquele andar. Todas as lojas pareciam iguais. Disparei pela escada rolante e quase caí de medo, tropeçando nos próprios pés. A sede secava minha garganta, eu estava morrendo sufocado! E ainda tinha a sensação de ser vigiado pelas criaturas horrendas. A qualquer momento, podiam pular sobre mim. Ao contornar o final do corredor, dei de cara com a máquina de refri. Maldita! Logo agora que eu não podia perder um minuto! E meu pai? Será que estava em segurança? Ou os zumbis haviam sugado seu cérebro? A sede falou mais alto. Tirei as moedas de dentro do bolso da calça, inseri na abertura e esperei, olhando para os lados, nervosamente. A máquina havia emperrado. Transtornado, comecei a bater e a chutar, até que a lata deslizou da prateleira, rolou e caiu na parte de baixo. Nada como um refri gelado!

 22/05/2011

Que mancada! Bem na hora em que eu ia saborear a bebida dos deuses, senti um tremor do lado esquerdo do peito. Era como um choque, um sinal de que eu estava irremediavelmente perdido. O tremor continuou e uma espécie de campainha começou a soar bem alto, bem perto de mim (o alarme de incêndio?) Não! Era meu celular. Atendi e vi que era meu pai, preocupado, querendo saber por que eu estava demorando tanto, afinal. Fiquei surpreso. Gaguejei alguma coisa de volta e disse que já estava voltando. Se foi alucinação da puberdade eu não sei. Só sei que vou dar um tempo nesse trampo. Sinto muito… Tô fora, brother!

 E foi essa a história que me rendeu muitos acessos no blog. Podem rir e duvidar. Não me importo. Aconteceu comigo. Always happens to me.  Da próxima vez que forem ao shopping, fiquem espertos…

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Fui.