A história de Mari

O OBITUÁRIO AMALDIÇOADO

 

 

Eu ainda não tinha me acostumado com a ideia quando me vi rodeada de caixas e pacotes no quarto na nova casa onde viveria a partir daquele dia, uma sexta-feira de inverno.

Meu pai, desempregado há dois anos, agarrou com unhas e dentes a oportunidade de recolocação na pequena cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, com ruas estreitas, de paralelepípedo e gente dócil.

A casa alugada era bem confortável, com destaque para a piscina (na verdade, um grande tanque) e a churrasqueira, no quintal.

Acabei me dando conta de que ganhava uma importante vantagem: a liberdade. Podia andar pelas ruas, sem medo, calçando chinelos, de shorts e camiseta, como todos os nativos.

À tardinha, independentemente da estação do ano, a temperatura caia. E uma neblina intensa invadia a cidade a partir das 10 horas da noite.

As semanas se passavam e eu tentava adaptar-me à rotina pacata e simples do lugarejo. Um lugar me encantava e eu nem sabia por quê: a capela da estradinha, toda branca, sem santos ou crucifixos, mas com um altar lindo, todo entalhado com carinhas de anjos e de seres místicos. No canto, perto da porta, um piano, coberto por um véu. Estava sempre aberta. Parecia que ninguém a frequentava.

Em agosto, quando as aulas começaram, conheci Gisele e Ana. Ambas riam alto quando eu fazia minhas perguntas curiosas. Uma delas foi sobre o nevoeiro todas as noites. “Nem vem, Mari… Esse mistério ninguém decifrou”, disse uma. “Só sei que quem ousa sair essa hora, não gosta do que vê nem do que ouve…”, sentencia a outra, fazendo uma voz cadavérica.

Num dia, voltando da aula, percebi que, em alguns estabelecimentos comerciais, na parede da entrada, ficava pendurado um quadrinho de vidro. Era o obituário, indicando quem morreu no dia anterior. Tinha a foto, o nome e dizeres sobre o defunto.

Aquilo me dava arrepios, mas, mesmo assim, toda vez que via um obituário, eu sentia uma vontade enorme de ler pra saber quem era o morto da vez.

Em uma determinada tarde, vi em um desses obituários a foto de uma pessoa conhecida. Era dona Mariquinha, a boleira mais famosa da cidade. Aquilo mexeu comigo. Afinal, há uma semana, eu tinha ido com minha mãe até a casa dela para buscar o bolo do aniversário da vovó.

Ainda estava lamentando a morte da boleira quando, ao virar o quarteirão de casa, dei de cara com a própria, toda faceira: “Oi, menina! Acabei de passar na sua casa pra pegar a bandeja do bolo. E deixei uns docinhos que fiz hoje”. Falava e caminhava a passos largos.

Precisei de alguns minutos para me recompor, encostada na primeira árvore que vi.  Dona Mariquinha não deve ter percebido a cara de terror que fiz. Será que era o fantasma da defunta. Ou era fome? Porque, com fome, sou mesmo capaz de ter alucinações.

Já em casa, contei pra minha mãe, que deu uma risada gostosa: “Imagine! Dona Mariquinha saiu daqui há minutos e com muita saúde. Aliás, quer experimentar o doce de coco que ela trouxe?”. Convenci-me de que foi engano. Não li o obituário direito. Pronto.

No entanto, na manhã seguinte, na escola, o assunto era o sumiço da boleira. Ela tinha saído de casa e não voltou mais. Quem a viu pela última vez disse que ela estava na rua à noite. Não consegui controlar a vertigem e acordei na Santa Casa, numa maca, com minha mãe ao meu lado.

“Filha, graças a Deus!”, disse aliviada e chorosa ao ver-me despertar.

Eu não conseguia raciocinar direito. Por isso, ao chegar em casa, fui deitar. Uma noite terrível de insônia, com a imagem do obituário, o encontro com a boleira e a notícia do sumiço, pipocando na minha cabeça. Felizmente, o dia seguinte era sábado e tive o fim de semana para convencer-me de que tudo não passou de um engano ou coisa assim.

Na segunda-feira, a pacata rotina voltou ao normal. Soube, pelo único jornal da cidade, que ninguém teve mais notícias de Dona Mariquinha.

O tempo passou e chegamos a outubro. Com amigas da escola, fui comer torta de maçã na doçaria da cidade. Era festa das bruxas. Vestidas a caráter, compartilhamos guloseimas.

Ao voltar para casa, já à noitinha, vi o obituário na porta da casa lotérica. Falecera seu Tonico, afiador de tesouras e facas, que rodava pelas ruas em sua bicicleta, assoprando um apito e gritando: “pra cortar até pensamento”.

Cheguei em casa e fui tomar banho. Já de pijama, peguei a roupa suja para colocar no cesto, na área perto da cozinha. Quando cruzei a porta, não me contive e dei um grito tão aterrorizante que minha mãe derrubou o coador de café com água quente. “Nossa, filha! Que susto! Pra que esse grito?”, perguntou, enquanto já limpava a sujeira.

Seu Tonico olhava espantado para mim, com um pedaço de bolo de fubá na mão, sentado à mesa. “É que… seu Tonico… eu… eu…”. Não consegui dizer nada.

“Calma, ‘fia’”, disse o amolador, “sua mãe me chamou aqui pra afiar as facas do seu pai pro churrasco de domingo”, procurou justificar-se, achando que meu susto tinha sido causado por sua presença dentro de casa, o que, realmente, não era uma situação comum para ele.

Sem saber o que dizer, pedi desculpas e sai da cozinha. O que eu falaria? Que viu seu Tonico no obituário? Seria ridículo. Tranquei-me no quarto e não jantei naquela noite.

Quando o dia clareou, sai de casa e fui ao barracão onde o amolador vivia. Bati duas, três, quatro vezes e nada. Resolvi entrar pelo portão do quintal, apoiando-me na parede do corredor estreito, até chegar à porta lateral, que estava fechada, mas não trancada. Entrei. Nenhum sinal de seu Tonico, nem de seus amoladores. Tinoco, o gato do seu Tonico, estava acuado e com os pelos eriçados, no telhado que cobria a caixa d’água.

Eu senti calafrios e sai correndo. Eram quase 8 horas e a banca de jornal da praça estava aberta. Seu Paulo, o jornaleiro, conversava com uma senhora que estava em prantos. Era a irmã do seu Tonico: “Ele sumiu”, dizia ela. “Tonico não foi pra casa dele ontem e não deu notícias até agora…”

Sentei-me em um banco até minhas pernas pararem de tremer. Eu estava morrendo de medo de tudo. Voltei pra casa e não falei com ninguém. Se contasse alguma coisa, no mínimo me chamariam de louca, porque era como eu estava me sentindo.

A semana foi pesada. Eu não conseguia me concentrar, não dormia nem comia direito. Na sexta-feira, pedi à minha mãe para não ir à escola e ela concordou. Achava mesmo que eu estava abatida. “Deve ser uma virose”, comentou.

Fiquei o dia todo na cama. Só sai pra tomar uma sopa, à noite. Voltei pro quarto, sentindo uma vontade incontrolável de ir à capela. Meus pais não me deixariam sair de casa. Mas, eu precisava muito de paz, de rezar.

Pulei a janela e sai pelo quintal. Cheguei à capela que, para variar, estava aberta. Sentei-me no primeiro banco e comecei a orar. Fui interrompida por barulho de passos. Virei para trás e vi um homem alto, de chapéu e casaco longo, caminhando em direção ao piano. Ele retirou o véu, que dobrou pacientemente. Sentou-se na banqueta e começou a tocar uma melodia desconhecida que, na verdade, me assustou, porque era perceptível o som de violinos, flautas e outros instrumentos. Como isso era possível?

A porta da capela bateu tão repentinamente que dei um pulo no banco. Foi quando percebi que as paredes brancas estavam ficando azuis e depois roxas. Quis levantar-me para ir embora, mas uma força imensa me segurava ali. Tentei falar, gritar, mas não saia nada e as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto, totalmente pálido. Vi que as formas entalhadas na madeira do altar não eram mais de anjos nem de figuras místicas, mas de rostos agonizantes, de demônios e bestas. “Meu Deus!”, pensei quando vi, no meio dos semblantes tristonhos talhados, os de dona Mariquinha e seu Tonico.  Eu queria correr, gritar, mas permanecia paralisada, sem forças para reagir.

A névoa, que invadia a cidade todas as noites, entrou pelo vão da porta e me envolveu de um jeito que me sugou completamente.

Na manhã seguinte, bem cedinho, um grito ensurdecedor quebrou o silêncio daquele dia primaveril. Era a minha mãe, na mercearia, diante do obituário, que mostrava a minha foto sorridente…

[Texto enviado por Mariângela Almeida]

 

 

 


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