A história da Fernanda Umile

Medo de quê?

Caraca! Vou te contar uma parada sinistra que aconteceu comigo outro dia. Foi no mês de julho, na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais.
Estava lá com minha família em férias. Já era noite, e o pessoal (meu pai, minha mãe e meu irmão) resolveu sair para dar umas voltinhas pela cidade e eu fiquei no hotel, pois não aguentava mais ficar vendo coisa velha.
Então, resolvi ficar ali, de boa, no hotel. Mas que hotel! Meu pai tem bom gosto pra escolher essas coisas. O lugar era muito show; tinha uma porção de coisas pra gente curtir: sala de jogos muito bem equipada; salão de informática com muita máquina moderna; salas de ginástica de primeira qualidade e três piscinas da hora – uma coberta e duas ao ar livre.
Ter um momento de sossego, sem o encrenqueiro do meu irmão, era tudo o que eu queria. Fiquei no quarto, que mais parecia uma casa de tão grande, tão completo e equipado, ouvindo uma música bacana, descansando, tomando um suco. Estava legal!

De repente, escutei um barulho que não pude saber ao certo de onde vinha, nem o que era. Deixa pra lá, pensei.
Continuei escutando meu sonzinho, deitada numa big cama ultramacia e forrada com lençóis que exalavam um perfume maravilhoso, quando de novo escutei um barulho, agora um pouco mais alto. Parecia alguém murmurando algo. Mas ali no quarto só estava eu… sozinha!
Por um momento, senti um medinho, confesso. Então, levantei e fui dar uma geral no quarto para ver se estava tudo em ordem.
Chequei o banheiro, maravilhoso, por sinal! , tudo bem. Dei uma olhadinha na copa, tudo bem também. Fiquei um pouco na sala, onde havia uns sofás bem grandes, macios e muito confortáveis, flores lindas e perfumadas, uma decoração surpreendente.
Tava de boa, sem nada pra fazer, então liguei a TV. Fiquei zapeando entre um canal e outro… outro… mais outro…
Toc-toc … bateram à porta.
Levantei e fui abrir. Não tinha ninguém!
Olhei para um lado, olhei para o outro. Nada!
Fechei a porta e entrei. Voltei a curtir a minha música e a TV.
Só foi eu sentar, e de novo:
Toc-toc
Abaixe a música.

Caramba! Tinha alguém de brincadeira comigo. Fui até a porta, abri e novamente não havia ninguém! Mas dessa vez eu acho que ouvi uma voz. Sei lá.
Bati a porta, falando um monte e voltei para o sofá.
TOC-TOC   TOC-TOC
Dessa vez as batidas foram com mais intensidade. Levantei a milhão e muito irritada. Abri a porta já preparada pra dizer poucas e boas pra aquela pessoa que estava fazendo essas gracinhas. Mas, ao abrir a porta, o que vejo? NINGUÉM!!!!
Fiquei muito intrigada! Tem alguém de brincadeira pra cima de mim.
Só pode ser o Felipe. Felipe é meu irmão de 5 anos.
Vai ver que os três já voltaram do passeio, e meu irmão está querendo me perturbar.
Estava disposta a dar um basta naquela brincadeira sem graça. Fechei a porta do quarto e saí correndo gritando pelos corredores: Felipe! Venha cá seu moleque! Eu vou te pegar!
Corri por toda a volta do andar onde estávamos hospedados e não vi ninguém. Abri a porta da escada de emergência pra ver se ele estava escondido por lá e também não tinha ninguém.
Ai, ai, ai. O que estava acontecendo por ali?
Estava ficando pilhada e, na verdade, com um certo medinho de ficar ali sozinha naquele lugar estranho, silencioso e, naquele momento, sinistro.
Saí, então, dando um rolê pelo hotel.
Fui andando pelos corredores silenciosos e um tanto escuros. Vou confessar: ODEIO ESCURO!
Em casa, sempre durmo com o abajur ligado, e o papai fica reclamando que eu estou gastando energia de bobeira. Eu nem ligo, durmo mesmo assim.
Embora fosse um hotel de primeira, era uma construção bem antiga, colonial, da época do Aleijadinho, Inconfidência Mineira, essas paradas de História aí, que eu não curto nem entendo muito bem, e que tinha sido restaurada e tombada como patrimônio histórico, papai falou.
Apesar de um toque moderno aqui, outro ali, conservava-se muito da arquitetura original barroca de uma época bem distante, muita arte sacra e documentos históricos.
Conforme eu ia caminhando pelos corredores, ia observando melhor os detalhes daquele lugar, que até então não tinha reparado.
Entrei num corredor onde havia várias portas. Em uma delas estava escrito: ARTE SACRA. Entrei e tomei um baita susto (o primeiro de muitos que viriam)!
Havia uma mesa enorme cheia de homens, que olharam para mim como se eu fosse uma intrusa. A luz apagou de repente e eu gritei.
Imediatamente, ela reacendeu, só que aquelas pessoas não estavam mais lá.
A sala não era mais a mesma!!!
Esse novo lugar parecia uma igreja. Sim, estava escrito: SALA DA SACRISTIA DA IGREJA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Ali estavam expostas várias imagens do século XVIII e um lindo chafariz esculpido por Aleijadinho nessa mesma época.
Eu não estava mais entendendo nada. Que lugar era aquele? Seria um hotel mal-assombrado ou era um museu? Também fantasmagórico!
Nessa altura, minhas pernas tremiam sem parar. Eu não conseguia nem correr nem gritar. Paralisei!
Fechei os olhos e me agachei atrás de uma linda e enorme pilastra.
Em seguida ouvi alguém falando comigo:
- Levanta daí, menina, e vá embora! Você está tumultuando nosso silêncio com sua música alta. Você conseguiu acordar personagens que há séculos dormem!
Olhei para cima, para os lados, e não havia ninguém, a não ser aquelas estátuas que pareciam mais reais do que eu mesma. E que me encaravam com olhares repressores.
Saí correndo e gritando, chamando meus pais, mas eles também não estavam por lá.
Eu corria por aquele hotel, já nem sabia mais se aquilo ali era um hotel, mesmo, sem rumo e sem saber o que seria de mim. Até que cheguei a um local onde estava escrito: SALA DA CRIPTA, um antigo porão da igreja, onde estavam guardadas pratarias, obras de Aleijadinho e outras peças de grande valor cultural.
Onde eu estoooooooooooooou? Socooooooooooorro!!!
Gritei e saí correndo, chorando, por aquele lugar estranho, sombrio e deserto, de pessoas, né, porque de estátuas… tinha um monte. As luzes começaram a piscar: acendiam e apagavam, acendiam e apagavam, cada vez num ritmo mais acelerado. Até que se apagaram por completo e tudo ficou muito escuro. Eu chorava muito.
- Acende, acende, eu gritava em pânico.
De repente, as luzes se acendem. Minha mãe toca em meu ombro e me diz:
- O que foi minha filha? O que aconteceu? Está tendo um pesadelo? Quer dividir comigo?
- Pesadelo? Não! Não sei! Acho melhor não!
Eu não conseguia entender o que havia acontecido comigo. Só sei que foi sinistro!
Olhei ao redor e percebi que agora estava tudo bem. Eu estava ali, com minha mãe, no quarto do hotel, deitada naquele lindo e macio sofá.


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