abr 10 2018

A história de Amanda

O BONECO VODOO

 


Meu nome é Amanda e vou contar a vocês a minha história.

Quando eu tinha onze anos aconteceu algo que marcou a minha vida para sempre.

Era um dia muito atarefado e estressante. Havia passado a noite toda estudando para aquela prova. A professora era muito metódica e não costumava dar boas notas para ninguém. Meu pai e minha mãe sabiam que eu tinha que estudar muito para passar na prova dela. Muitos dos meus colegas estavam com medo de tirar nota baixa. Alguns queriam faltar e, no dia anterior, estavam planejando dizer que estavam doentes, mas a professora estava atenta a cada um deles e sabia que essas estratégias não iriam funcionar na aula dela. E avisou que iria dar nota zero caso alguém faltasse na prova sem atestado ou até em casos de morte em família.

Lembro que todos estavam em silêncio na classe. Todos preocupados. E alguns até diziam que iriam repetir o ano. Mas havia um menino na sala, o Airton. Ele estava sorrindo e confiante. Dizia que a professora estava demorando e ele tinha uma viagem marcada com os pais ainda naquela noite. Todos ficaram impressionados com a confiança dele. Principalmente por ele não ser um aluno que estudava muito. Mesmo assim, ele sorria e brincava com os que estavam preocupados. Não era algo normal de se ver.

Quando a professora entrou, nem fez a chamada dos alunos. Foi logo passando a prova de mesa em mesa. E dizia que todos estavam cientes de que ela não iria dar moleza. Que tudo que estava na prova foi muitas vezes ensinado nas aulas dela e não tinha como errar.

Logo que ela entregou as provas, sentou-se e começou a fazer a chamada. Cada um que respondia presença tinha voz de choro ou engasgava conforme liam as perguntas da prova. Eu fiquei impressionada naquele dia. A prova estava muito difícil mesmo. Sabia que eu iria tirar uma nota média e eu havia estudado muito. Uma colega começou a chorar. Rasgou a prova e saiu correndo da classe. A professora nem olhou para a cara dela. Abriu a sua caderneta de notas dos alunos e já deu zero para ela.  E depois ficou olhando para cada um da sala.

Seus olhos atentos. Olhava com seriedade todo mundo. Não tinha como fazer cola. Mesmo assim, alguns tentavam. Mas era inútil. A professora sabia todas as técnicas de colar. Eu tentei me concentrar para responder as perguntas. Lia com atenção cada uma. Foi quando eu ouvi um barulho bem forte.

Olhei e vi o corpo da professora caído sobre a mesa. Com os olhos entreabertos, ela ainda pediu ajuda, falou palavras incompreensíveis, tentou se agarrar nos papeis e livros. E depois, deu um suspiro e desmaiou. Parecia morta.

Todos gritaram muito. Menos o Airton. Ele saiu sorrindo. Eu fui atrás dele e perguntei do que estava rindo. Ele me segurou com força e disse bem zangado que não era da minha conta e que não era para eu me meter. Logo em seguida, saiu correndo.

Eu olhei para o chão e vi um boneco. Ele deve ter deixado cair na hora que me enfrentou, sem perceber. Eu peguei o boneco e o guardei na mochila.

Dispensaram toda a escola naquele dia. Disseram que a professora havia tido um ataque do coração e morrido. Eu fui correndo para casa para avisar os meus pais.

Falei com eles e mostrei a boneca.

Minha mãe disse que aquilo era um boneco voodoo e que eu devia tomar cuidado.  Ela sabia o que estava falando, pois estudava sobre religiões e ocultismo.

Ela me explicou que aqueles bonecos eram usados para ferir os inimigos e até matá-los. E que existiam bonecos de todos os tipos. Para funcionar, alguns precisavam de fios de cabelos ou de raspas de unhas do inimigo que desejavam torturar e de uma agulha para enfiar no boneco para o inimigo sentir dores. Disse que o que eu havia achado funcionava de um jeito mais simples, era só colocar o nome da pessoa. Avisou que a magia era poderosa. E que eu não me metesse nisso. Deveria deixar aquele garoto em paz para não me ferir. E deixar a justiça cuidar dele.

Ela jogou o boneco no lixo. E eu peguei de volta escondido. Eu queria justiça.

No dia seguinte, fui para a escola. Fizeram uma reunião no pátio e informaram que, apesar de a professora ter morrido, o período de provas iria continuar no dia seguinte. E que todos estavam dispensados.

Quando eu estava saindo, o Airton segurou no meu braço. Ele me perguntou sobre a boneca. Eu disse que não sabia do que ele estava falando e fui correndo para a diretoria me proteger, caso ele quisesse me fazer algum mal. Eu estava com muito medo dele. Mas sabia também que ninguém iria acreditar na minha história.

Não consegui chegar a tempo na diretoria. Airton conseguiu me alcançar e me empurrou para uma sala vazia da escola. Ele revistou a minha mochila e achou o boneco. Ele riu. E olhou para mim e disse que não era para falar nada. Que ele iria sumir com o boneco e tudo ficaria bem. Eu não dizia nada. Só olhava para ele com muita raiva. Ele pegou uns papeis da lixeira e, com um fósforo, fez uma pequena fogueira. Ele ria muito. Pegou o boneco e jogou nas chamas.

Quando o boneco começou a queimar ele parou de rir. Olhou para mim e gritou:

“Você me enganou!”

O corpo dele começou a ficar transparente como fumaça. Foi desaparecendo aos poucos enquanto o boneco derretia. De repente, ele sumiu!

O feitiço havia caído no feiticeiro! Airton não sabia que eu havia trocado o nome no boneco  pelo nome dele…

Até hoje eu ainda me lembro daquele boneco. E muitos ainda não acreditam na minha história!

[Texto enviado por Amanda de Sousa]

 

 

 


abr 6 2018

A história de Adriano

O PESCADOR : A  LENDA DO MORCEGO BRANCO

Meu nome é Lucas. Geraldo e Alcides eram meus amigos há muito tempo. Eles resolveram me trazer para pescar no rio. Eram bons para pescar e sabiam que eu jamais havia pescado. Seria ótimo contar para os amigos da escola que  eu era mesmo um perdedor. Eles fizeram uma aposta comigo para ver quem conseguia pescar mais peixes.

Era comum na cidade os jovens que pescassem mais peixes se tornassem líderes em suas escolas. Mas pescar à noite… Isso, sim, era um ato de coragem.

Geraldo olhou para o rio, deu um sorriso e me perguntou:

— Tem certeza que não quer desistir, Lucas?

Eu coloquei a lanterna no chão e, enquanto mexia em minha mochila, olhei para o Geraldo e disse:

— Não! Nunca! Se vocês já pescaram por aqui, eu também posso!

Alcides olhou para o Geraldo e deu um sorriso. Então, todos começaram a armar as varas de pesca. Em poucos minutos, nós três estávamos em silêncio, esperando o primeiro peixe morder a isca, quando de repente, escutamos um barulho. Eu me assustei e deixei a vara cair no rio.

— Droga! Perdi a minha vara!

Geraldo e Alcides riram da situação e comentaram:

— Desista, Lucas! Já é difícil ganhar da gente e, agora que perdeu a sua vara, podemos nos considerar vencedores.

— É isso mesmo, Lucas! Você é e será sempre um perdedor!

Revoltado, olhando para a vara de pesca sendo levada pelo rio, eu respondi:

— Eu não vou desistir! Vou pensar em outra maneira de pescar os peixes.  Eu já volto.

Meu nome é Lucas. Geraldo e Alcides eram meus amigos há muito tempo. Eles resolveram me trazer para pescar no rio. Eram bons para pescar e sabiam que eu jamais havia pescado. Seria ótimo contar para os amigos da escola que  eu era mesmo um perdedor. Eles fizeram uma aposta comigo para ver quem conseguia pescar mais peixes.

Era comum na cidade que os jovens que pescassem mais peixes se tornavam líderes em suas escolas. Mas pescar à noite… Isso, sim, era um ato de coragem.

Geraldo olhou para o rio, deu um sorriso e me perguntou:

— Tem certeza que não quer desistir, Lucas?

Eu estava com a lanterna no chão e, enquanto mexia em minha mochila, olhei para o Geraldo…

— Não! Nunca! Se vocês já pescaram por aqui eu também posso!

Alcides olhou para o Geraldo e deu um sorriso e todos começam, a armar as suas varas de pesca. Em poucos minutos nós três estavamos em silencio esperando o primeiro peixe, quando de repente, escutamos um barulho. Eu me assustei e deixei a minha vara cair no rio.

— Droga! Perdi a minha vara!

Geraldo e Alcides riram da situação  e comentaram.

— Desista, Lucas! Já é difícil ganhar da gente e agora que perdeu a sua vara podemos nos considerar vencedores.

— É isso mesmo, Lucas! Você  será sempre um perdedor!

Revoltado, olhando para a vara de pesca sendo levada pelo rio, eu respondi:

— Eu não vou desistir! Vou pensar em outra maneira de pescar os peixes.  Eu já volto.

— Peguei um! Peguei um! — Geraldo gritou.

Lucas pegou a lanterna e saiu, deixando os dois comemorando. Andou pela floresta, falando sozinho.

— Eu nunca vou conseguir pescar os peixes. Eles têm razão! Sou mesmo um perdedor. O pessoal da escola vai rir de mim o ano todo! Para completar,  minha namorada, Marisa, estava fazendo um bolo para comemorar minha pesca. Tenho certeza de que ela vai jogar aquilo na minha cara! Perdedor! Perdedor!

Ouvi novamente o barulho estranho e resolvi investigar. Fui seguindo o som até chegar a um espinheiro enorme. Finalmente, vi um morcego, preso bem no meio dele.

— Ah… Então foi você que me deu um susto… Eu deveria deixá-lo aí para sempre! Tem ideia do que estou falando, hein? Você é apenas um morcego em apuros.

O morcego se debateu, tentando se livrar, mas os espinhos feriam ainda mais o seu corpo. Eu não agüentei ver a angústia do animal. Tirei minha camisa e a rasguei em dois pedaços. Enrolei um pedaço em cada mão para me proteger, quebrei uns galhos da árvore e outros, que estavam prendendo o morcego. Finalmente, o tirei do espinheiro.

Coloquei o morcego no chão. Ele  se lambeu um pouco e logo depois de recuperar sua energia, saiu voando.

Dei um sorriso, feliz:

— Pelo menos alguém se deu bem nesta história. É melhor voltar para o rio, agora. Não vou conseguir pescar nada mesmo…

Quando cheguei ao local onde os meus colegas estavam, percebi que cada um havia pegado cerca de dez peixes. Eles estavam rindo à toa e começaram a gargalhar quando viram que eu havia voltado.

— Olha lá, Alcides! O perdedor assistindo nossa conquista!

— É Geraldo! Vamos fazer um troféu de perdedor e pedir para as garotas mais lindas da escola entregar para ele! Vamos tirar fotos e postar na internet! Ele vai ficar famoso!

Furioso, respondi:

— Pois podem parar de rir! Saibam que eu tenho um plano para pegar mais peixes que vocês! Mas, para isso, eu preciso ficar sozinho aqui na beira do rio!

Havia dito isso para não ter que ficar ouvindo aqueles caras caçoando da minha cara. Eu não tinha plano algum! Vi meus colegas arrumarem suas coisas e deixarem um cesto para eu colocar os peixes. Antes de partir, eles avisaram que eu receberia o troféu de perdedor logo que chegasse na escola, pela manhã.

Eu me sentei na beira do rio, ao lado do cesto vazio, e fiquei ali, pensando na minha derrota. Era humilhante demais! Eu não queria mais pertencer àquele mundo. Quanto mais  pensava em como seria o amanhã,  mais desejava acabar com tudo. Fiquei pensando em me jogar no rio e acabar com tudo ali mesmo. Estava quase chorando.

Eu me levantei, respirei fundo e me preparei para mergulhar na água fria. Eu sabia que não iria sobreviver, pois nem aprendera a nadar… Mas fui surpreendido por uma voz feminina.

— Então acabou!

Meu coração disparou. Acendi a lanterna e fiquei procurando a pessoa que disse aquilo.

– Quem está ai?  Quem é você?  Apareça, alma penada! — gritei.

Aos poucos, uma mulher surgiu  perto da beira do rio. Ela era bem pálida e usava um vestido branco. Seus lábios vermelhos mostravam claramente os seus dentes pontiagudos, proeminentes.

— Você é uma Vampira?

— Quem eu sou não importa! O que você vai fazer… Sim!

— O que eu vou fazer não é da sua conta! Você não sabe nada sobre a minha vida!

— Eu estou aqui faz um bom tempo. Eu ouvi o que seus colegas disseram. Vai ser um verdadeiro perdedor se continuar com esse seu plano insano.

— É minha vida! Faço dela o que eu quiser.

— Vocês, humanos, vivem colocando fantasias na cabeça só para ficarem tristes. Acham que, procurando a morte, encontram a salvação. Será que não entendem que os problemas fazem parte da vida? Que eles aparecem para serem enfrentados?

Lucas baixou a cabeça e disse:

— Eu não sei como vou resolver isso.

— Você já está resolvendo. Você está desabafando com alguém. E geralmente os problemas de uns são fáceis para outros.

— Acha que pode resolver isso?

— Não completamente. Mas posso ajudar. Se quiser.

— Claro que quero! Mas… Mas o que vai querer em troca?

Ela sorriu e se aproximuo. Disse quase sussurrando:

— Um amigo!

A Vampira olhou para as árvores e, com apenas alguns gestos, vários morcegos apareceram e ficaram rodeando o rio. Aos poucos, eles foram mergulhando na água. Cada morcego pegava um peixe e jogava em meu cesto. Em poucos minutos, os morcegos conseguiram encher todo o cesto. Eu fiquei bem impressionado com toda aquela cena. Meu olhos começaram a lacrimejar. Eu olhei para a Vampira e disse:

— Foi mesmo tão fácil para você…

E eu a abracei… Os morcegos voltaram para as árvores.

— Se você vier aqui uma vez por semana, os morcegos encherão o seu cesto de peixes e, assim, poderemos conversar. A floresta é um lugar muito solitário.

Eu concordei. Dei outro abraço na Vampira. Coloquei o meu cesto com peixes nas costas e segui o seu caminho alegremente pois sabia que o dia seguinte seria ótimo.

Enquanto eu me afastava do rio, a Vampira se transformou novamente no morcego branco que eu havia salvado.

(Texto enviado por Adriano Siqueira)