ago 23 2011

A história de Flávia

Um pedido especial

Dona Dalva era uma professora do sexto ano na escola em que eu estudei há 3 anos. Alta e antipática, cheia de si e de elegância para destruir a auto-estima dos alunos ou suas pretensões em tirar boas notas na disciplina mais odiada do colégio.
Eu não era a mais ágil da turma, confesso, mas me esforçava para entender geometria, aprender polinômios e desembaraçar extensas expressões algébricas. Estudava toda noite para me preparar para a prova do final do mês.
Na folha de papel brilhante, dona Dalva nos propunha cinco questões infernais valendo dois pontos e meio cada uma. Em seguida, em silêncio sepulcral, ela observava com indisfarçável alegria o pavor que se apoderava de nossa alma  diante do desconhecido mistério da matéria.
Todos
os dias dona Dalva surgia como um fantasma na porta da classe e nos tratava como se fôssemos seres de outro planeta. Eu não entendia por que ela se comportava daquele modo. Era professora! Sua missão era ensinar! No entanto, mostrava-se sempre ríspida e zombeteira.
Bastava alguém se atrapalhar  na explicação ou gaguejar numa resposta qualquer, para ela tecer algum comentário sarcástico e fazer o resto da classe rir em cumplicidade forçada, por puro medo de contestá-la.
Quantas vezes eu acordei assustada, à noite, após o pesadelo ao ver seu rosto, na escuridão do quarto, ameaçar-me com o sorriso malévolo de um zero? Que professora sinistra!

Certa vez, durante uma prova mensal, eu estava tão empenhada em determinar o cálculo dos ângulos internos de um triângulo, que  esqueci de colocar o nome no cabeçalho da prova. Ela odiava receber provas sem nome!
Dona Dalva era assim… rotineira. Agia do mesmo modo, vestia-se com as mesmas roupas e  sempre  sacava um comentário mordaz da língua afiada. Também tinha o hábito de, ao findar o tempo da prova, pedir ao último aluno de cada fileira que passasse sua prova ao aluno da frente, e que esse repetisse a ação com o aluno seguinte até que todas as provas estivessem reunidas com o primeiro aluno de cada fileira. Em seguida, ela recolhia os maços malditos e os guardava num saco plástico transparente. Uma semana depois,  recebíamos as notas. Exatidão doentia…Naquela tarde, ao ouvir o ríspido chamado para entregar a prova, eu me apavorei completamente. Ainda precisava redigir a resposta do problema, senão ela tirava  meio-ponto da nota final.
Será que dá tempo? – eu pensei, aflita.
Eu era a quinta da fileira. Havia quase dez alunos sentados  atrás de mim.
Resolvi arriscar. Escrevi rapidamente a resposta do problema, lembrando-me de pontuar a frase para evitar gozação.
— Passem a prova, vamos! – ela ordenou, contrariada.
S-sim! – eu disse, apavorada, virando a folha para escrever meu nome no alto da página, enquanto recebia o maço de folhas do aluno de trás.
— Só falta colocar meu nome… – justifiquei, sem graça.
— Pode ficar com a prova, mocinha! – ela disse, arrancando da minha mão o maço de provas e juntando-o  aos dos outros alunos da frente.
Senti o frio da morte descer sobre mim. Eu tinha feito tudo certo, afinal! Calculei que poderia tirar uns oito, até nove! Levantei-me num impulso e pedi, com lágrimas nos olhos, que ela aceitasse a prova. Ela me olhou com desprezo e começou a guardar o material. Fiquei desesperada. Aquilo significava ficar com zero em matemática!
Insisti. Choraminguei. Supliquei, sofrendo humilhação diante dos colegas. Ela simplesmente me ignorou. Pegou a agenda, as provas, a inevitável bolsa preta e saiu pela porta afora como se fugisse de mim, sob os olhares aterrorizados de meus amigos  solidários.
Saí da sala chorando e fui vomitar no banheiro… estava arrasada!
Caminhei pela rua sentindo-me um lixo. Por que ela agia desse jeito, tão cruelmente?
Meus pais marcaram reunião com a diretora na mesma semana, pediram clemência, paciência, mas dona Dalva recusou-se reconsiderar. Tinha regras. Tinha princípios. Não era mulher de voltar atrás em suas decisões, mesmo que fossem malucas, doidas, descabidas. Estava decretado:  eu havia tirado um belo zero para aprender… a ser intolerante e injusta. Um zero na pior matéria do sexto ano! Meu destino? Estudar até morrer para obter DEZ na prova seguinte, e ainda assim, ficar com média baixa…  se tivesse sorte! Talvez até repetisse de ano por causa disso… Já era novembro!  Aquela decisão significava um dano irrecuperável. Todos na escola diziam que as provas finais de matemática eram como as chamas do inferno!Maldita! – foi o que pensei, por dias a fio, enquanto a observava andar pela sala, com  ar superior e giz na mão, metida no vestido preto modelo Trinity. Ela me olhava de lado e me estudava como a uma inimiga, pensando que talvez eu tivesse esquecido todo o terror que me fizera passar.
Mas eu tinha um plano. Ela não perdia por esperar. A ideia veio se instalando em minha mente de mansinho. Como algo que apodrece aos poucos e começa a cheirar mal depois de um tempo. Não importava quanto demorasse, eu diria a ela, de algum modo, o que pensava de seu comportamento patético. A dor da injustiça não tem prazo de validade. Simplesmente fica ali, dentro do peito, aguardando quieta o momento exato de mostrar-se, ao surgir ocasião propícia.
Mas pude descobrir,  anos depois, como a vida é curiosa e sempre nos oferece oportunidade para resolver as coisas. Resolver bem, de modo a mostrar o que devia ser mudado.
Eu estava realmente disposta a acertar as contas com a megera.
O que posso fazer? – gritei para o céu escuro naquela noite de inverno, da janela de meu quarto.
Lembrei-me  de Fausto, a história terrível que eu havia lido em um livro da biblioteca da escola… o homem que deseja o máximo poder  e decide fazer um pacto com o Maligno para conseguir o que  quer. Como o personagem dessa tragédia, será que eu teria coragem bastante para dar algo tão valioso em troca de um desejo?
A resposta ao meu anseio veio do céu escuro, na forma de uma estrela cadente que riscou a noite naquele exato momento. Entre o susto e o fascínio, eu repeti o encantamento que minha avó havia me ensinado:

Estrela brilhante que no céu agora vejo,
Atenda a este pedido, realize meu desejo!                                                      �
Eu desejo…
E então, f
echei meus olhos e pedi um modo de resolver o caso, de me sentir vingada.
Hoje, relendo o diário onde registrei o que me aconteceu, penso que minha crença em um mundo mágico foi muito importante para acalmar meus sentimentos. E ainda me pergunto, em aposta secreta, se eu obtive dez na prova seguinte por ter estudado feito louca, por vontade de mostrar a dona Dalva que a injustiça podia ser reparada, ou por conta da magia das palavras sussurradas sob encantamento. O que eu ainda não compreendo, o que me deixa realmente admirada até hoje, é como uma professora inteligente e bem nascida  pôde desperdiçar tanta energia para ser tão rígida, em vez de ensinar seus alunos com exemplos de tolerância e acolhimento.
O que dona Dalva me ensinou com sua atitude hostil, injusta e irônica?
O que eu realmente aprendi?
A
criar ressentimentos?
A superá-los?
A viver para sempre como uma adolescente assustada?
A reagir com firmeza contra as donas Dalvas do mundo?    D
escobri que minha escolha final foi a melhor resposta a esse
comportamento patético: contar toda a história por meio deste blog e  expôr esse comportamento inaceitável.
E, de quebra, aqui vai um pedido especial:
Sejam mais camaradas conosco, professores!
Há muito o que aprender e muito mais a ensinar dentro de uma escola…

  

 

 

 

 


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