abr 10 2018

A história de Amanda

O BONECO VODOO

 


Meu nome é Amanda e vou contar a vocês a minha história.

Quando eu tinha onze anos aconteceu algo que marcou a minha vida para sempre.

Era um dia muito atarefado e estressante. Havia passado a noite toda estudando para aquela prova. A professora era muito metódica e não costumava dar boas notas para ninguém. Meu pai e minha mãe sabiam que eu tinha que estudar muito para passar na prova dela. Muitos dos meus colegas estavam com medo de tirar nota baixa. Alguns queriam faltar e, no dia anterior, estavam planejando dizer que estavam doentes, mas a professora estava atenta a cada um deles e sabia que essas estratégias não iriam funcionar na aula dela. E avisou que iria dar nota zero caso alguém faltasse na prova sem atestado ou até em casos de morte em família.

Lembro que todos estavam em silêncio na classe. Todos preocupados. E alguns até diziam que iriam repetir o ano. Mas havia um menino na sala, o Airton. Ele estava sorrindo e confiante. Dizia que a professora estava demorando e ele tinha uma viagem marcada com os pais ainda naquela noite. Todos ficaram impressionados com a confiança dele. Principalmente por ele não ser um aluno que estudava muito. Mesmo assim, ele sorria e brincava com os que estavam preocupados. Não era algo normal de se ver.

Quando a professora entrou, nem fez a chamada dos alunos. Foi logo passando a prova de mesa em mesa. E dizia que todos estavam cientes de que ela não iria dar moleza. Que tudo que estava na prova foi muitas vezes ensinado nas aulas dela e não tinha como errar.

Logo que ela entregou as provas, sentou-se e começou a fazer a chamada. Cada um que respondia presença tinha voz de choro ou engasgava conforme liam as perguntas da prova. Eu fiquei impressionada naquele dia. A prova estava muito difícil mesmo. Sabia que eu iria tirar uma nota média e eu havia estudado muito. Uma colega começou a chorar. Rasgou a prova e saiu correndo da classe. A professora nem olhou para a cara dela. Abriu a sua caderneta de notas dos alunos e já deu zero para ela.  E depois ficou olhando para cada um da sala.

Seus olhos atentos. Olhava com seriedade todo mundo. Não tinha como fazer cola. Mesmo assim, alguns tentavam. Mas era inútil. A professora sabia todas as técnicas de colar. Eu tentei me concentrar para responder as perguntas. Lia com atenção cada uma. Foi quando eu ouvi um barulho bem forte.

Olhei e vi o corpo da professora caído sobre a mesa. Com os olhos entreabertos, ela ainda pediu ajuda, falou palavras incompreensíveis, tentou se agarrar nos papeis e livros. E depois, deu um suspiro e desmaiou. Parecia morta.

Todos gritaram muito. Menos o Airton. Ele saiu sorrindo. Eu fui atrás dele e perguntei do que estava rindo. Ele me segurou com força e disse bem zangado que não era da minha conta e que não era para eu me meter. Logo em seguida, saiu correndo.

Eu olhei para o chão e vi um boneco. Ele deve ter deixado cair na hora que me enfrentou, sem perceber. Eu peguei o boneco e o guardei na mochila.

Dispensaram toda a escola naquele dia. Disseram que a professora havia tido um ataque do coração e morrido. Eu fui correndo para casa para avisar os meus pais.

Falei com eles e mostrei a boneca.

Minha mãe disse que aquilo era um boneco voodoo e que eu devia tomar cuidado.  Ela sabia o que estava falando, pois estudava sobre religiões e ocultismo.

Ela me explicou que aqueles bonecos eram usados para ferir os inimigos e até matá-los. E que existiam bonecos de todos os tipos. Para funcionar, alguns precisavam de fios de cabelos ou de raspas de unhas do inimigo que desejavam torturar e de uma agulha para enfiar no boneco para o inimigo sentir dores. Disse que o que eu havia achado funcionava de um jeito mais simples, era só colocar o nome da pessoa. Avisou que a magia era poderosa. E que eu não me metesse nisso. Deveria deixar aquele garoto em paz para não me ferir. E deixar a justiça cuidar dele.

Ela jogou o boneco no lixo. E eu peguei de volta escondido. Eu queria justiça.

No dia seguinte, fui para a escola. Fizeram uma reunião no pátio e informaram que, apesar de a professora ter morrido, o período de provas iria continuar no dia seguinte. E que todos estavam dispensados.

Quando eu estava saindo, o Airton segurou no meu braço. Ele me perguntou sobre a boneca. Eu disse que não sabia do que ele estava falando e fui correndo para a diretoria me proteger, caso ele quisesse me fazer algum mal. Eu estava com muito medo dele. Mas sabia também que ninguém iria acreditar na minha história.

Não consegui chegar a tempo na diretoria. Airton conseguiu me alcançar e me empurrou para uma sala vazia da escola. Ele revistou a minha mochila e achou o boneco. Ele riu. E olhou para mim e disse que não era para falar nada. Que ele iria sumir com o boneco e tudo ficaria bem. Eu não dizia nada. Só olhava para ele com muita raiva. Ele pegou uns papeis da lixeira e, com um fósforo, fez uma pequena fogueira. Ele ria muito. Pegou o boneco e jogou nas chamas.

Quando o boneco começou a queimar ele parou de rir. Olhou para mim e gritou:

“Você me enganou!”

O corpo dele começou a ficar transparente como fumaça. Foi desaparecendo aos poucos enquanto o boneco derretia. De repente, ele sumiu!

O feitiço havia caído no feiticeiro! Airton não sabia que eu havia trocado o nome no boneco  pelo nome dele…

Até hoje eu ainda me lembro daquele boneco. E muitos ainda não acreditam na minha história!

[Texto enviado por Amanda de Sousa]

 

 

 


abr 6 2018

A história de Adriano

O PESCADOR : A  LENDA DO MORCEGO BRANCO

Meu nome é Lucas. Geraldo e Alcides eram meus amigos há muito tempo. Eles resolveram me trazer para pescar no rio. Eram bons para pescar e sabiam que eu jamais havia pescado. Seria ótimo contar para os amigos da escola que  eu era mesmo um perdedor. Eles fizeram uma aposta comigo para ver quem conseguia pescar mais peixes.

Era comum na cidade os jovens que pescassem mais peixes se tornassem líderes em suas escolas. Mas pescar à noite… Isso, sim, era um ato de coragem.

Geraldo olhou para o rio, deu um sorriso e me perguntou:

— Tem certeza que não quer desistir, Lucas?

Eu coloquei a lanterna no chão e, enquanto mexia em minha mochila, olhei para o Geraldo e disse:

— Não! Nunca! Se vocês já pescaram por aqui, eu também posso!

Alcides olhou para o Geraldo e deu um sorriso. Então, todos começaram a armar as varas de pesca. Em poucos minutos, nós três estávamos em silêncio, esperando o primeiro peixe morder a isca, quando de repente, escutamos um barulho. Eu me assustei e deixei a vara cair no rio.

— Droga! Perdi a minha vara!

Geraldo e Alcides riram da situação e comentaram:

— Desista, Lucas! Já é difícil ganhar da gente e, agora que perdeu a sua vara, podemos nos considerar vencedores.

— É isso mesmo, Lucas! Você é e será sempre um perdedor!

Revoltado, olhando para a vara de pesca sendo levada pelo rio, eu respondi:

— Eu não vou desistir! Vou pensar em outra maneira de pescar os peixes.  Eu já volto.

Meu nome é Lucas. Geraldo e Alcides eram meus amigos há muito tempo. Eles resolveram me trazer para pescar no rio. Eram bons para pescar e sabiam que eu jamais havia pescado. Seria ótimo contar para os amigos da escola que  eu era mesmo um perdedor. Eles fizeram uma aposta comigo para ver quem conseguia pescar mais peixes.

Era comum na cidade que os jovens que pescassem mais peixes se tornavam líderes em suas escolas. Mas pescar à noite… Isso, sim, era um ato de coragem.

Geraldo olhou para o rio, deu um sorriso e me perguntou:

— Tem certeza que não quer desistir, Lucas?

Eu estava com a lanterna no chão e, enquanto mexia em minha mochila, olhei para o Geraldo…

— Não! Nunca! Se vocês já pescaram por aqui eu também posso!

Alcides olhou para o Geraldo e deu um sorriso e todos começam, a armar as suas varas de pesca. Em poucos minutos nós três estavamos em silencio esperando o primeiro peixe, quando de repente, escutamos um barulho. Eu me assustei e deixei a minha vara cair no rio.

— Droga! Perdi a minha vara!

Geraldo e Alcides riram da situação  e comentaram.

— Desista, Lucas! Já é difícil ganhar da gente e agora que perdeu a sua vara podemos nos considerar vencedores.

— É isso mesmo, Lucas! Você  será sempre um perdedor!

Revoltado, olhando para a vara de pesca sendo levada pelo rio, eu respondi:

— Eu não vou desistir! Vou pensar em outra maneira de pescar os peixes.  Eu já volto.

— Peguei um! Peguei um! — Geraldo gritou.

Lucas pegou a lanterna e saiu, deixando os dois comemorando. Andou pela floresta, falando sozinho.

— Eu nunca vou conseguir pescar os peixes. Eles têm razão! Sou mesmo um perdedor. O pessoal da escola vai rir de mim o ano todo! Para completar,  minha namorada, Marisa, estava fazendo um bolo para comemorar minha pesca. Tenho certeza de que ela vai jogar aquilo na minha cara! Perdedor! Perdedor!

Ouvi novamente o barulho estranho e resolvi investigar. Fui seguindo o som até chegar a um espinheiro enorme. Finalmente, vi um morcego, preso bem no meio dele.

— Ah… Então foi você que me deu um susto… Eu deveria deixá-lo aí para sempre! Tem ideia do que estou falando, hein? Você é apenas um morcego em apuros.

O morcego se debateu, tentando se livrar, mas os espinhos feriam ainda mais o seu corpo. Eu não agüentei ver a angústia do animal. Tirei minha camisa e a rasguei em dois pedaços. Enrolei um pedaço em cada mão para me proteger, quebrei uns galhos da árvore e outros, que estavam prendendo o morcego. Finalmente, o tirei do espinheiro.

Coloquei o morcego no chão. Ele  se lambeu um pouco e logo depois de recuperar sua energia, saiu voando.

Dei um sorriso, feliz:

— Pelo menos alguém se deu bem nesta história. É melhor voltar para o rio, agora. Não vou conseguir pescar nada mesmo…

Quando cheguei ao local onde os meus colegas estavam, percebi que cada um havia pegado cerca de dez peixes. Eles estavam rindo à toa e começaram a gargalhar quando viram que eu havia voltado.

— Olha lá, Alcides! O perdedor assistindo nossa conquista!

— É Geraldo! Vamos fazer um troféu de perdedor e pedir para as garotas mais lindas da escola entregar para ele! Vamos tirar fotos e postar na internet! Ele vai ficar famoso!

Furioso, respondi:

— Pois podem parar de rir! Saibam que eu tenho um plano para pegar mais peixes que vocês! Mas, para isso, eu preciso ficar sozinho aqui na beira do rio!

Havia dito isso para não ter que ficar ouvindo aqueles caras caçoando da minha cara. Eu não tinha plano algum! Vi meus colegas arrumarem suas coisas e deixarem um cesto para eu colocar os peixes. Antes de partir, eles avisaram que eu receberia o troféu de perdedor logo que chegasse na escola, pela manhã.

Eu me sentei na beira do rio, ao lado do cesto vazio, e fiquei ali, pensando na minha derrota. Era humilhante demais! Eu não queria mais pertencer àquele mundo. Quanto mais  pensava em como seria o amanhã,  mais desejava acabar com tudo. Fiquei pensando em me jogar no rio e acabar com tudo ali mesmo. Estava quase chorando.

Eu me levantei, respirei fundo e me preparei para mergulhar na água fria. Eu sabia que não iria sobreviver, pois nem aprendera a nadar… Mas fui surpreendido por uma voz feminina.

— Então acabou!

Meu coração disparou. Acendi a lanterna e fiquei procurando a pessoa que disse aquilo.

– Quem está ai?  Quem é você?  Apareça, alma penada! — gritei.

Aos poucos, uma mulher surgiu  perto da beira do rio. Ela era bem pálida e usava um vestido branco. Seus lábios vermelhos mostravam claramente os seus dentes pontiagudos, proeminentes.

— Você é uma Vampira?

— Quem eu sou não importa! O que você vai fazer… Sim!

— O que eu vou fazer não é da sua conta! Você não sabe nada sobre a minha vida!

— Eu estou aqui faz um bom tempo. Eu ouvi o que seus colegas disseram. Vai ser um verdadeiro perdedor se continuar com esse seu plano insano.

— É minha vida! Faço dela o que eu quiser.

— Vocês, humanos, vivem colocando fantasias na cabeça só para ficarem tristes. Acham que, procurando a morte, encontram a salvação. Será que não entendem que os problemas fazem parte da vida? Que eles aparecem para serem enfrentados?

Lucas baixou a cabeça e disse:

— Eu não sei como vou resolver isso.

— Você já está resolvendo. Você está desabafando com alguém. E geralmente os problemas de uns são fáceis para outros.

— Acha que pode resolver isso?

— Não completamente. Mas posso ajudar. Se quiser.

— Claro que quero! Mas… Mas o que vai querer em troca?

Ela sorriu e se aproximuo. Disse quase sussurrando:

— Um amigo!

A Vampira olhou para as árvores e, com apenas alguns gestos, vários morcegos apareceram e ficaram rodeando o rio. Aos poucos, eles foram mergulhando na água. Cada morcego pegava um peixe e jogava em meu cesto. Em poucos minutos, os morcegos conseguiram encher todo o cesto. Eu fiquei bem impressionado com toda aquela cena. Meu olhos começaram a lacrimejar. Eu olhei para a Vampira e disse:

— Foi mesmo tão fácil para você…

E eu a abracei… Os morcegos voltaram para as árvores.

— Se você vier aqui uma vez por semana, os morcegos encherão o seu cesto de peixes e, assim, poderemos conversar. A floresta é um lugar muito solitário.

Eu concordei. Dei outro abraço na Vampira. Coloquei o meu cesto com peixes nas costas e segui o seu caminho alegremente pois sabia que o dia seguinte seria ótimo.

Enquanto eu me afastava do rio, a Vampira se transformou novamente no morcego branco que eu havia salvado.

(Texto enviado por Adriano Siqueira)

 


mar 4 2018

A história de Mari

O OBITUÁRIO AMALDIÇOADO

 

 

Eu ainda não tinha me acostumado com a ideia quando me vi rodeada de caixas e pacotes no quarto na nova casa onde viveria a partir daquele dia, uma sexta-feira de inverno.

Meu pai, desempregado há dois anos, agarrou com unhas e dentes a oportunidade de recolocação na pequena cidade de pouco mais de 30 mil habitantes, com ruas estreitas, de paralelepípedo e gente dócil.

A casa alugada era bem confortável, com destaque para a piscina (na verdade, um grande tanque) e a churrasqueira, no quintal.

Acabei me dando conta de que ganhava uma importante vantagem: a liberdade. Podia andar pelas ruas, sem medo, calçando chinelos, de shorts e camiseta, como todos os nativos.

À tardinha, independentemente da estação do ano, a temperatura caia. E uma neblina intensa invadia a cidade a partir das 10 horas da noite.

As semanas se passavam e eu tentava adaptar-me à rotina pacata e simples do lugarejo. Um lugar me encantava e eu nem sabia por quê: a capela da estradinha, toda branca, sem santos ou crucifixos, mas com um altar lindo, todo entalhado com carinhas de anjos e de seres místicos. No canto, perto da porta, um piano, coberto por um véu. Estava sempre aberta. Parecia que ninguém a frequentava.

Em agosto, quando as aulas começaram, conheci Gisele e Ana. Ambas riam alto quando eu fazia minhas perguntas curiosas. Uma delas foi sobre o nevoeiro todas as noites. “Nem vem, Mari… Esse mistério ninguém decifrou”, disse uma. “Só sei que quem ousa sair essa hora, não gosta do que vê nem do que ouve…”, sentencia a outra, fazendo uma voz cadavérica.

Num dia, voltando da aula, percebi que, em alguns estabelecimentos comerciais, na parede da entrada, ficava pendurado um quadrinho de vidro. Era o obituário, indicando quem morreu no dia anterior. Tinha a foto, o nome e dizeres sobre o defunto.

Aquilo me dava arrepios, mas, mesmo assim, toda vez que via um obituário, eu sentia uma vontade enorme de ler pra saber quem era o morto da vez.

Em uma determinada tarde, vi em um desses obituários a foto de uma pessoa conhecida. Era dona Mariquinha, a boleira mais famosa da cidade. Aquilo mexeu comigo. Afinal, há uma semana, eu tinha ido com minha mãe até a casa dela para buscar o bolo do aniversário da vovó.

Ainda estava lamentando a morte da boleira quando, ao virar o quarteirão de casa, dei de cara com a própria, toda faceira: “Oi, menina! Acabei de passar na sua casa pra pegar a bandeja do bolo. E deixei uns docinhos que fiz hoje”. Falava e caminhava a passos largos.

Precisei de alguns minutos para me recompor, encostada na primeira árvore que vi.  Dona Mariquinha não deve ter percebido a cara de terror que fiz. Será que era o fantasma da defunta. Ou era fome? Porque, com fome, sou mesmo capaz de ter alucinações.

Já em casa, contei pra minha mãe, que deu uma risada gostosa: “Imagine! Dona Mariquinha saiu daqui há minutos e com muita saúde. Aliás, quer experimentar o doce de coco que ela trouxe?”. Convenci-me de que foi engano. Não li o obituário direito. Pronto.

No entanto, na manhã seguinte, na escola, o assunto era o sumiço da boleira. Ela tinha saído de casa e não voltou mais. Quem a viu pela última vez disse que ela estava na rua à noite. Não consegui controlar a vertigem e acordei na Santa Casa, numa maca, com minha mãe ao meu lado.

“Filha, graças a Deus!”, disse aliviada e chorosa ao ver-me despertar.

Eu não conseguia raciocinar direito. Por isso, ao chegar em casa, fui deitar. Uma noite terrível de insônia, com a imagem do obituário, o encontro com a boleira e a notícia do sumiço, pipocando na minha cabeça. Felizmente, o dia seguinte era sábado e tive o fim de semana para convencer-me de que tudo não passou de um engano ou coisa assim.

Na segunda-feira, a pacata rotina voltou ao normal. Soube, pelo único jornal da cidade, que ninguém teve mais notícias de Dona Mariquinha.

O tempo passou e chegamos a outubro. Com amigas da escola, fui comer torta de maçã na doçaria da cidade. Era festa das bruxas. Vestidas a caráter, compartilhamos guloseimas.

Ao voltar para casa, já à noitinha, vi o obituário na porta da casa lotérica. Falecera seu Tonico, afiador de tesouras e facas, que rodava pelas ruas em sua bicicleta, assoprando um apito e gritando: “pra cortar até pensamento”.

Cheguei em casa e fui tomar banho. Já de pijama, peguei a roupa suja para colocar no cesto, na área perto da cozinha. Quando cruzei a porta, não me contive e dei um grito tão aterrorizante que minha mãe derrubou o coador de café com água quente. “Nossa, filha! Que susto! Pra que esse grito?”, perguntou, enquanto já limpava a sujeira.

Seu Tonico olhava espantado para mim, com um pedaço de bolo de fubá na mão, sentado à mesa. “É que… seu Tonico… eu… eu…”. Não consegui dizer nada.

“Calma, ‘fia’”, disse o amolador, “sua mãe me chamou aqui pra afiar as facas do seu pai pro churrasco de domingo”, procurou justificar-se, achando que meu susto tinha sido causado por sua presença dentro de casa, o que, realmente, não era uma situação comum para ele.

Sem saber o que dizer, pedi desculpas e sai da cozinha. O que eu falaria? Que viu seu Tonico no obituário? Seria ridículo. Tranquei-me no quarto e não jantei naquela noite.

Quando o dia clareou, sai de casa e fui ao barracão onde o amolador vivia. Bati duas, três, quatro vezes e nada. Resolvi entrar pelo portão do quintal, apoiando-me na parede do corredor estreito, até chegar à porta lateral, que estava fechada, mas não trancada. Entrei. Nenhum sinal de seu Tonico, nem de seus amoladores. Tinoco, o gato do seu Tonico, estava acuado e com os pelos eriçados, no telhado que cobria a caixa d’água.

Eu senti calafrios e sai correndo. Eram quase 8 horas e a banca de jornal da praça estava aberta. Seu Paulo, o jornaleiro, conversava com uma senhora que estava em prantos. Era a irmã do seu Tonico: “Ele sumiu”, dizia ela. “Tonico não foi pra casa dele ontem e não deu notícias até agora…”

Sentei-me em um banco até minhas pernas pararem de tremer. Eu estava morrendo de medo de tudo. Voltei pra casa e não falei com ninguém. Se contasse alguma coisa, no mínimo me chamariam de louca, porque era como eu estava me sentindo.

A semana foi pesada. Eu não conseguia me concentrar, não dormia nem comia direito. Na sexta-feira, pedi à minha mãe para não ir à escola e ela concordou. Achava mesmo que eu estava abatida. “Deve ser uma virose”, comentou.

Fiquei o dia todo na cama. Só sai pra tomar uma sopa, à noite. Voltei pro quarto, sentindo uma vontade incontrolável de ir à capela. Meus pais não me deixariam sair de casa. Mas, eu precisava muito de paz, de rezar.

Pulei a janela e sai pelo quintal. Cheguei à capela que, para variar, estava aberta. Sentei-me no primeiro banco e comecei a orar. Fui interrompida por barulho de passos. Virei para trás e vi um homem alto, de chapéu e casaco longo, caminhando em direção ao piano. Ele retirou o véu, que dobrou pacientemente. Sentou-se na banqueta e começou a tocar uma melodia desconhecida que, na verdade, me assustou, porque era perceptível o som de violinos, flautas e outros instrumentos. Como isso era possível?

A porta da capela bateu tão repentinamente que dei um pulo no banco. Foi quando percebi que as paredes brancas estavam ficando azuis e depois roxas. Quis levantar-me para ir embora, mas uma força imensa me segurava ali. Tentei falar, gritar, mas não saia nada e as lágrimas começaram a rolar pelo meu rosto, totalmente pálido. Vi que as formas entalhadas na madeira do altar não eram mais de anjos nem de figuras místicas, mas de rostos agonizantes, de demônios e bestas. “Meu Deus!”, pensei quando vi, no meio dos semblantes tristonhos talhados, os de dona Mariquinha e seu Tonico.  Eu queria correr, gritar, mas permanecia paralisada, sem forças para reagir.

A névoa, que invadia a cidade todas as noites, entrou pelo vão da porta e me envolveu de um jeito que me sugou completamente.

Na manhã seguinte, bem cedinho, um grito ensurdecedor quebrou o silêncio daquele dia primaveril. Era a minha mãe, na mercearia, diante do obituário, que mostrava a minha foto sorridente…

[Texto enviado por Mariângela Almeida]

 

 

 


abr 26 2017

A história de Cláudio Augusto

O MONSTRO QUE GOSTAVA DE BRINQUEDOS

 

 

Meu nome é Cláudio Augusto e eu tive uma das piores experiências da minha vida quando eu era uma ingênua criança: ser assustado por meus amigos.

Eu morava no bairro do Itaim Paulista em São Paulo. Minha mãe alugou uma casa simples em uma rua de terra que tinha valeta. Eu tinha 12 anos e, enquanto ela trabalhava, eu ia para a escola e depois da aula brincava com os amigos na rua.

Um dia, eu peguei a minha caixa de brinquedos e mostrei para os meus amigos que eu conhecia há pouco tempo. O nome dos dois amigos eram Eriko e Breno. Eles eram irmãos e moravam a apenas 200 metros da minha casa.

Quando eles viram meus brinquedos ficaram impressionados e brincaram com alguns deles até ficar quase de noite e foi quando falei que era hora de entrar, pois a minha mãe não iria gostar de me ver fora de casa tão tarde.

Foi quando um deles me disse que era perigoso ficar com tantos brinquedos e que o Babatoque podia devorar a minha perna direita. Eu ri muito. Achava que era uma piada deles, mas eles estavam falando como pessoas assustadas. E me contaram a história do Babatoque.

Tratava-se de uma criança órfã que nasceu deformada. Tinha a cabeça muito grande e a boca dele era enorme. Seu corpo não aguentava tanto o peso da cabeça e ele andava segurando a cabeça por todo o lado que ia. Quando estava com 10 anos, ele brincava na rua com os seus brinquedos e uns garotos chutaram a cabeça dele e pisaram e destruíram todos os brinquedos. Babatoque mordeu a perna de um dos garotos e engoliu a perna toda! Os pais dos garotos chamaram a polícia, mas o Babatoque nunca foi achado.

Os outros garotos fugiram e o Babatoque sumiu. Porém ele às vezes aparece chorando, pedindo brinquedos e caso a criança não dê um brinquedo ele come a perna direita dele, pois foi com essa perna que ele foi chutado.

Meus amigos sabiam meter medo e eu era muito ingênuo na época. Eles diziam que se eu não desse os brinquedos para eles o Babatoque iria comer a minha perna direita. Eu me lembro bem de ter dado quase todos os brinquedos que eu tinha para aqueles meninos e depois corri para casa.

Naquela noite eu havia esquecido que a minha mãe chegaria muito tarde. Ela estava separada do meu pai fazia um bom tempo e iria sair com um amigo de que ela gostava muito. Foi uma noite muito assustadora pra mim. Além de estar sozinho, ainda imaginei a história do Babatoque. Andei pelos cômodos da casa verificando se as portas estavam fechadas. Foi quando lembrei que havia deixado a janela do quarto da minha mãe aberta. Corri para fechar quando ouvi um choro de criança.

Eu fiquei paralisado. Ouvi fortes batidas na porta da sala. O choro era alto. Fiquei bem perto da porta e me assustei, pois cada vez eram batidas mais fortes. Eu estava apavorado. O choro foi distanciando e foi aí que lembrei de novo da janela aberta do quarto da minha mãe.

Corri para fechar a janela e quando coloquei a mão no trinco da janela para fechar,  Babatoque segurou meu braço. Eu fiquei apavorado. Gritei muito e a boca dele ficou bem aberta, mas estava desequilibrando para o lado, e ele largou a minha mão para segurar a cabeça e aproveitei aquele segundo e fechei a janela e tranquei.

Ele bateu com a cabeça na janela algumas vezes. Eu me escondi debaixo da cama e fiquei imaginando se ele poderia entrar.

Ele ficou em silêncio. Não ouvi mais nada.

A porta se abriu de repente e eu fiquei assustado. Escutei a voz da minha mãe. Fui correndo e era ela mesma. Falei tudo o que aconteceu e ela achou uma loucura e um absurdo. Falou que meus amigos me enganaram e se aproveitaram da minha ingenuidade para pegar os meus brinquedos. E que eu não era para ser tão ingênuo assim e ter um pouco mais de atitude ou eu poderia ser prejudicado no futuro por pessoas que gostam de se aproveitar de outras. E também lembro que ela queria ir na casa dos garotos logo de manhã e pegar meus brinquedos de volta.

Eu chorei muito naquela noite. Minha mãe não acreditava na história e eu havia perdido meus brinquedos. Eu sabia que o dia seguinte seria complicado.

Acordei às duas horas da manhã ouvindo gritos. Muitos gritos. Depois, ouvi as sirenes e muita gente na rua falando sobre um ataque.

Minha mãe e eu fomos  à janela ver o que estava acontecendo.

Aqueles garotos que me enganaram estavam nas macas e eram levados pelos enfermeiros. Eles estavam feridos e diziam:

— O Babatoque quis comer a minha perna. Quase comeu a minha perna!

 

[Texto enviado por Cláudio Augusto/A.S]

 

 


mai 2 2016

A história de Geraldo

MEDO DE  FANTASMA

conto a historia de Geraldo/ AS

Meu nome é Geraldo Aparecido e este é o meu relato.

Quando eu tinha 14 anos o meu dia era bem lotado de coisas para fazer. De manhã, tinha natação e, à tarde, escola; depois, escola de dança. Eu queria ser um daqueles cantores jovens que tinham conjuntos e dançavam como os adolescentes que viviam passando na TV. New kids on the blook era um dos conjuntos de que eu mais gostava e sempre tentava imitá-los nos videoclipes que assistia.

Uma das professoras de dança, Regina, que tinha na época 23 anos, era uma beleza radiante e dançava perteitamente. Seu sorriso sempre me deixava empolgado em seguir  seus passos nas aulas. Fazia sempre o melhor para receber seus elogios.

Um dia ela disse que iria sair da escola, pois tinha arrumado um novo emprego. Eu fiquei muito triste, não queria que partisse assim tão rápido. Eu confesso que tinha um amor platônico por ela.

Eu a encontrei do lado de fora da escola. Ela estava com suas coisas, indo para casa. Eu perguntei se eu poderia ajudar a carregar, pois ela estava com muitas coisas e ela aceitou. Disse que morava perto dali, a umas duas quadras.

Enquanto  andávamos, ela me contou uma história sobre um casal que havia morrido em um incêndio em uma casa ali perto. Esse casal fez de tudo para ficar juntos, mas eles morreram e só o fantasma da mulher ficava vagando pelo mundo e, por meio de um pacto, ela reencontrava seu marido por uma noite.

Eu fiquei curioso com a história. E os detalhes que ela me passava eram tão reais que eu continuei vez mais curioso.

Ela percebeu minha curiosidade sobre a história e disse que iríamos passar pela casa onde o casal vivera.

Paramos em frente à casa. Era muito velha e ninguém a havia reformado depois do incêndio. A casa devia estar mesmo assombrada, pois não havia ninguém escondido lá.

Ela me convenceu a entrar. Disse que era seguro. Estendeu sua mão e eu a segurei. Ela me levou para a sala. Disse que eles adoravam aquele cômodo. Eu vi a foto deles no chão. Ela sorriu quando percebi que era ela na foto.

Eu fiquei assustado. Seria possível? A minha professora era um fantasma?

Eu havia ouvido outra voz, dizendo:

“O que está esperando Regina?? Mate logo o rapaz para que possamos passar mais uma noite juntos!”

Eu fiquei congelado e apavorado. Aquilo não podia estar acontecendo!

Eu só pensava em fugir de lá. Corri para a porta e ela se trancou sozinha. Olhei para a Regina e vi que ela falava com seu marido.  Depois, levantou os braços e a porta se abriu novamente. Eu corri para a porta e ela se fechou, prendendo o meu pé. Ela gritou para ele parar com aquilo. Que ela queria paz. Queria morrer em paz e nunca mais levar ninguém lá para ser sacrificado só para ficarem juntos uma noite.

Isso me deixou em pânico. Eu era um tipo de sacrifício? Ela tinha que me matar?

Ela novamente gritou e a porta se abriu. Livre, corri para fora da casa. Ouvi gritos e a casa começou a desabar. Tudo estava virando poeira que invadiu a rua. Depois, tudo ficou calmo.

Ninguém acreditaria na minha história. Mas deixo ela aqui registrada.

[Texto enviado por Geraldo Aparecido/A.S]

 


ago 23 2013

A história de Flávia

UM PEDIDO ESPECIAL

 

 

Dona Dalva era uma professora do sexto ano na escola em que eu estudei há 4 anos. Alta e antipática, cheia de si e de elegância para destruir a auto-estima dos alunos ou suas pretensões em tirar boas notas na disciplina mais difícil do curso.
Eu não era a mais ágil da turma, confesso, mas me esforçava para entender geometria, aprender polinômios e desembaraçar extensas expressões algébricas. Até gostava disso. Estudava toda noite para me preparar para a avaliação do final do mês… a terrível!
Na folha de papel brilhante, dona Dalva nos propunha cinco questões infernais valendo dois pontos e meio cada uma. Em seguida, em silêncio sepulcral, ela observava com indisfarçável alegria o pavor que se apoderava de nossa alma  diante do desconhecido mistério da matéria.
Todos
os dias dona Dalva surgia como um fantasma na porta da classe e nos tratava como se fôssemos seres de outro planeta. Eu não entendia por que ela se comportava daquele modo. Era professora! Sua missão era ensinar! No entanto, mostrava-se sempre ríspida e zombeteira.
Bastava alguém se atrapalhar  na explicação ou gaguejar numa resposta qualquer, para ela tecer algum comentário sarcástico e fazer o resto da classe rir em cumplicidade forçada, por puro medo de contestá-la.
Quantas vezes eu acordei assustada, à noite, imaginando seu rosto na escuridão do quarto, a me ameaçar com o contorno de um zero? Que professora sinistra!

Certa vez, durante uma prova mensal, eu estava tão empenhada em determinar o cálculo dos ângulos internos de um triângulo, que  esqueci de colocar o nome no cabeçalho da prova. E ela odiava esquecimentos e respostas incompletas!
Dona Dalva era assim… rotineira. Agia do mesmo modo, sorria com sarcasmo e  sempre  sacava um comentário mordaz da língua afiada. Também tinha o hábito de, ao findar o tempo da prova, pedir ao último aluno de cada fileira que passasse sua prova ao aluno da frente, e que esse repetisse a ação com o aluno seguinte até que todas as provas estivessem reunidas com o primeiro aluno de cada fileira. Em seguida, ela recolhia as pilhas e as guardava num saco plástico transparente… Uma semana depois,  recebíamos as notas. Exatidão doentia!

Naquela tarde, ao ouvir seu ríspido chamado para entregar a prova, eu me apavorei completamente. Ainda precisava redigir a resposta do problema, senão ela tirava  meio-ponto da nota final.
Será que dá tempo? – eu pensei, aflita.
Eu era a quinta da fileira. Havia quase dez alunos sentados  atrás de mim.
Resolvi arriscar. Escrevi rapidamente a resposta completa do problema, lembrando-me de pontuar a frase, ao final.
— Passem a prova, vamos! – ela ordenou, contrariada.
S-sim! – eu disse, apavorada, virando a folha para escrever meu nome no alto da página, enquanto recebia o maço de folhas do aluno de trás.
— Só falta colocar meu nome… – justifiquei, sem graça.
— Pode ficar com a prova, mocinha! – ela disse, arrancando da minha mão o maço de provas e juntando-o  aos dos outros alunos.

Senti o frio da morte descer sobre mim. Eu tinha feito tudo certo, afinal! Calculei que poderia tirar uns oito, até nove! Levantei-me num impulso e pedi, com lágrimas nos olhos, que ela aceitasse minha prova. Ela me olhou com indiferença. Fiquei desesperada. Aquilo significava ficar com zero na matéria!
Insisti. Choraminguei. Supliquei, sofrendo humilhação diante dos colegas. Ela simplesmente me ignorou. Pegou a agenda, as provas, a inevitável bolsa preta e saiu pela porta afora, sob os olhares aterrorizados de  amigos.
Saí da sala chorando e fui vomitar no banheiro… estava arrasada!
Caminhei pela rua sentindo-me um lixo. Por que ela agia desse jeito, tão cruelmente?
Meus pais marcaram reunião com a diretora na mesma semana, pediram clemência, paciência, mas dona Dalva recusou-se reconsiderar. Tinha regras. Tinha princípios. Não era mulher de voltar atrás em suas decisões, mesmo que fossem malucas, doidas, descabidas. Estava decretado:  eu havia tirado um belo zero para aprender a ser intolerante e injusta. Um zero na temida matéria do sexto ano! Meu destino? Estudar até morrer para obter DEZ na prova seguinte, e ainda assim, ficar com média baixa…  Se tivesse sorte! Talvez até repetisse de ano por causa disso… Já era outubro!  Aquela situação significava um dano quase irrecuperável. Todos na escola diziam que as provas finais de matemática eram como as chamas do inferno! Estou acabada! – foi o que pensei por dias a fio, enquanto a observava andar pela sala, com  ar superior e giz na mão, metida no vestido preto modelo Trinity. Ela me olhava de lado, sorrateira, pensando que talvez eu tivesse esquecido todo o terror que me fizera passar.
Mas eu tinha um plano. Ela não perdia por esperar. A ideia veio se instalando em minha mente de mansinho. Como algo que apodrece aos poucos e começa a cheirar mal depois de um tempo. Não importava quanto demorasse, eu diria a ela, de algum modo, o que pensava de seu comportamento patético. A dor da injustiça não tem prazo de validade. Simplesmente fica ali, dentro do peito, aguardando quieta o momento exato de mostrar-se, ao surgir ocasião propícia.
Mas pude descobrir,  muitos anos depois, como a vida é curiosa e sempre nos oferece oportunidade para resolver as coisas. Resolver de um bom modo, para mostrar o que deve ser mudado, corrigido.

O que posso fazer? – gritei para a noite de inverno, da janela de meu quarto.
Lembrei-me  de Fausto, a história terrível que eu havia lido em um livro da biblioteca da escola… o homem que decide fazer um pacto com o lado mau da força para conseguir o que  deseja.   Será que eu teria coragem bastante para realizar meu desejo, como teve o personagem dessa tragédia?


A resposta ao meu anseio veio do céu escuro, na forma de uma estrela cadente que riscou a noite naquele exato momento. Entre o susto e o fascínio, eu repeti o encantamento que minha avó havia me ensinado:

Estrela brilhante que no céu agora vejo,
Atenda a este pedido, realize meu desejo!                                                      �
Eu desejo…
E então, f
echei meus olhos e pedi um modo de resolver o caso, de me sentir vingada.


Hoje, relendo o diário onde registrei o que me aconteceu quando era criança, penso que minha crença em um mundo mágico foi muito importante para acalmar meus sentimentos naquela época. E ainda me pergunto, em aposta secreta, se eu consegui nota dez na prova  por ter estudado feito louca ou por vontade de mostrar à dona Dalva que a injustiça podia ser reparada por conta da magia das palavras sussurradas sob encantamento…

No entanto, o que eu ainda não compreendo, o que me deixa realmente admirada até hoje é perceber como alguém tão inteligente como ela pôde desperdiçar tempo e energia para ser tão rígida, em vez de ensinar com exemplos de tolerância e acolhimento.
O que dona Dalva me ensinou com sua atitude hostil?
O que eu realmente aprendi?

A reagir com firmeza contra as “donas Dalvas do mundo”?  D
escobri que minha escolha foi a melhor resposta:
contar tudo o que aconteceu a vocês e expôr esse comportamento inaceitável.
E, de quebra, aqui vai um pedido especial:
Sejam mais camaradas conosco, professores!
Há muito o que aprender e muito mais a ensinar em uma escola…


[Texto enviado por Flávia C.]